Meu encontro com o escritor Monteiro Lobato

Em 1942 e 1943, quando eu tinha sete para oito anos, o nome de Monteiro Lobato, tanto na casa dos meus pais como na dos meus avós, era respeitado como o do mais importante escritor brasileiro vivo. Era o grande escritor de contos, um Guy de Maupassant brasileiro, era o cronista agudo e engraçado das coisas do cotidiano e era o grande polemista de assuntos brasileiros. Mais do que tudo era uma presença que se impunha sobre todas as outras. Qualquer coisa que surgisse, todo mundo ia procurar saber a opinião de Monteiro Lobato. Mesmo no período em que a imprensa da ditadura de Getúlio Vargas era mais censurada, achava-se um jeito de saber a opinião de Monteiro Lobato.

Ele dominava a cena.

Não a dominava como um maître à penser, Lobato não tinha nada de filósofo nem de encadeador de conceitos. Ele dominava a cena com a sua energia, com a força enorme de sua presença, com a sua graça particular e bem desaforadamente brasileira de dizer as coisas.

Eu vivia no meio de crianças e de adultos que davam livros para crianças ou que liam livros para crianças, e ouvia muito conversa de adultos, na minha casa se conversava muito, eu sabia muita coisa sobre a guerra, sabia que a gente estava numa ditadura, e sabia que Monteiro Lobato era um escritor muito importante. Mas não sabia que ele era um escritor infantil.

É claro que muita gente no Brasil sabia, milhares de crianças sabiam, mas o que acontecia na minha casa e na minha família e na minha roda de crianças amigas era um pouco o retrato de uma situação que veio a se inverter completamente depois da morte de Monteiro Lobato. Era um escritor importantíssimo que “também” escrevia para crianças.

Certamente o meu pai e meu avô, intelectuais participantes, sabiam que Lobato “também” escrevia para crianças, mas, com toda evidência, o principal eram as “outras coisas”: os contos, as polêmicas, a atividade jornalística, a antiga luta do petróleo e do ferro, as intervenções rudes, desaforadas e muito engraçadas, aquela presença enérgica e fantástica na vida intelectual brasileira.

Então começou a aparecer na minha casa o Frango d’Água. O Frango d’Água era o Artur Neves, amigo do meu pai e editor de Monteiro Lobato na Companhia Editora Nacional (depois o foi também na Brasiliense, quando os dois mudaram para lá). Ganhou esse apelido porque era muito magro, um pescoço espichado, muito ativo, gesticulador, ou fosse o que fosse, o certo é que o apelido pegou. Eu sempre o chamei de Frango d’Água, e, entre os adultos, quando ele não estava presente, o apelido é que dominava.

Ele apareceu assim de repente porque morava em São Paulo e eu morava em Santos com os meus pais. Normalmente meu pai o encontrava em São Paulo. Mas deu que ele começou a descer a serra e passar fins de semana como hóspede na minha casa. Uma criança e os amigos dos pais, as “visitas”, é um capítulo à parte na infância de cada um e creio que assim será até o fim do mundo. As crianças e as visitas. O leitor deste artigo já percebeu que o Frango d’Água vai trazer o Monteiro Lobato para a minha vida, mas, tirando fora isso, mesmo que não fosse, ele foi a visita mais querida e mais amiga que aconteceu na minha infância. Ele foi aquela visita que criou uma imensa afinidade com a criança. Eu nunca tinha visto uma visita tão engraçada, tão amiga minha, tão interessante e tão original. O Frango d’Agua entrou no meu coração de criança.

E ele foi me trazendo os livros de Monteiro Lobato, alguns autografados, O Saci eu tenho até hoje (“Ao João Carlos, com uma palmada de Monteiro Lobato”),Os Doze Trabalhos de Hércules esse veio depois (“Ao João Carlos, para que aprenda a ser esperto como a Emília e forte como o Hércules”) a minha irmãzinha levou para a escola e roubaram dela, e os outros sem autógrafo, ou ele trazia ou eu pedia para meu pai comprar. Felizmente logo na página 4 dos livros vinha a lista dos volumes publicados, era fácil, era só seguir aquilo.

Eu fiquei imediatamente apaixonado pelas Caçadas de Pedrinho e pelo resto, uma força colossal que me ligou àqueles livros, eu não ia ficar analisando, via só a graça que o Lobato levava aos enredos, aos diálogos, às descrições, era um mundo completamente superior aos dos livros infantis que eu tinha lido. Uma coisa assim que o público (e eu) sentiu quando viu o Pelé jogar: é ele. É “ele” e acabou-se.

Naquele tempo das grandes cozinheiras, e das copeiras, os almoços e jantares demoravam uma eternidade. Eu sempre sentava ao lado do meu pai, ouvia muito, dava poucos palpites, ouvia da estréia do Leônidas, da batalha de Stalingrado, do Domingos da Guia no Corinthians, dos dribles de meio milímetro que o Domingos tinha feito antes, do Zizinho que quebrou a perna do Agostinho, do nosso detestado ditador Getúlio Vargas, que prendia as pessoas de quem eu gostava (como prendeu o meu pai e o Frango d’Água), da paralisia do Roosevelt, da coragem do Churchill. Evidentemente não se falava com amor do Filinto Müller e dos espias que rondavam as pessoas suspeitas ou que elas achavam que as rondavam, e de repente, não mais que de repente, eu e o Frango d’Água começamos a discutir o Visconde de Sabugosa, as pílulas do doutor Caramujo, as coisas da dona Benta e da tia Anastácia, o Pedrinho e a Narizinho, o tio Barnabé e o Saci, e os rodamoinhos de vento, e aquela conversa de mesa esquentou, outros meteram o bedelho, sem desmerecer a importância da Segunda Guerra Mundial, que era interessantíssima, todas as crianças desenhavam um periscópio saindo da água, um avião largando bomba, sem desmerecer a Segunda Guerra Mundial, a turma do Sítio do Picapau Amarelo foi colocada em lugar de honra naquelas conversas também.

Artigo escrito especialmente para a revista Bravo! e publicado na edição nº 126, fevereiro de 2008

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