Vida e Obra

Em 2008, João Carlos Marinho revisitou suas memórias para escrever este texto.
São lembranças e reflexões que abrangem o período entre a infância e a realização de seu grande desejo.

Quando eu era criança, o meu sonho era ser escritor, morava em Santos e vivia escrevendo pequenas histórias em caderno espiral só para mostrar para os amigos e para a família. Nisso eu tinha especial incentivo do meu pai Roberto Silva e do seu querido amigo Artur Neves. A amizade deles havia começado no Presídio Maria Zélia, onde a ditadura do Getúlio Vargas trancava os presos políticos. O meu pai havia ensinado inglês para o Artur Neves na cadeia, e o Artur Neves tinha jeito para língua, saiu da prisão falando correntemente.

O Artur Neves me introduziu ao mundo dos livros de Monteiro Lobato. O jardim da infância e o primário eu fiz no Ateneu Progresso Brasileiro, das inesquecíveis dona Ida e dona Jandira, ali na avenida Ana Costa. A minha casa ficava perto, na rua Galeão Carvalhal, e no meu aniversário de cinco anos eu fiz um comício em casa, dizendo que não admitia mais que a empregada me levasse para a escola, que aquilo era ridículo, me colocava numa situação de incompetente. A discussão foi forte, a minha mãe era totalmente contra,mas eu ganhei. Vejam o azar, no primeiro dia, andei sozinho até a escola e, na frente da escola, quando atravessei da ilha da avenida Ana Costa para a calçada de lá, veio uma bicicleta na contramão, fui atropelado e sofri um grave ferimento na cabeça, que se chocou contra a quina do meio-fio. Eu não gemia de dor, eu gemia de raiva! O naufrágio dos meus argumentos. Voltei a ser escoltado, até fazer seis anos. O bafo quente, denso, pesado, daqueles verões de Santos permanece na minha memória, o sol batia muito forte, derretia o asfalto das ruas, queimava o pé das pessoas, mas eu, tirando fora cinema, circo, mágico e escola, eu andava sempre descalço, criei cascão no pé, por isso não me incomodava. A minha mãe aproveitava o sol forte para fazer cocadas ao sol, um petisco muito bom. Ao terminar o curso primário fui cursar o admissão e o ginásio como interno no Instituto Mackenzie em São Paulo, e continuei residindo em Santos, para onde eu voltava todos os fins de semana e férias.

A leitora

Foi nessa época, entre cinco e seis anos, que aconteceu o caso muito interessante da empregada que lia em voz alta. Como eu ia ao jardim de infância à tarde, a minha mãe queria encher o meu tempo de maneira educativa de manhã e a empregada que arrumava a casa se ofereceu para ler em voz alta histórias para mim. Se a história era muito longa, ela devia ler um pedaço. O lugar que eu gostava de ouvir história era na ponta do canal três, naquele pedaço que o canal vai entrando no mar e às vezes uma onda respinga. A base da mureta era larga, eu sentava ao lado da empregada, ela abria o livro e lia. E um dia o meu pai resolveu me ensinar a ler pelo sistema da cartilha antiga que tinha uma sólida capa de papelão. Uma capa séria, sem ilustração nenhuma, não queria seduzir ninguém, não estava a fim de gracinhas. Aquela cartilha do Ba, Bé, Bi, Bó, Bu, que não tinha grandes sutilezas pedagógicas, era pão com queijo, mas sou testemunha de que funcionava muito bem. Às seis da tarde o meu pai chegava do trabalho, sentava na poltrona grande da sala, pegava a cartilha e eu sentava na perna dele, de cavalinho. Dia a dia comecei a entrar nos mistérios da leitura. E a empregada continuou a me levar todo dia na ponta do canal e a me ler uma história. Eu gostava do jeito que ela lia, punha muita vida naquela leitura, sabia dar uma emoção. Só que, um dia, por causa das aulas de alfabetização do meu pai, comecei a acompanhar no livro as frases que ela lia. Fiquei perplexo. Esfreguei os olhos. Achei que estava tendo um delírio. O que ela falava não combinava com o que estava escrito.

Essa sensação de delírio era real porque foi a primeira vez que eu li alguma coisa fora da cartilha, o meu pai ainda me achava insuficiente, eu não tinha alvará para sair lendo geral por aí. Só tinha lido cartilha, nas aulas do meu pai. Então a história acabou, resolvi tirar a limpo no dia seguinte se aquilo era delírio ou não era. O livro ficava com ela, ela não emprestava pra mim. No dia seguinte, na ponta do canal três, a leitura dela continuou. E eu acompanhei desde o começo. Era uma coisa muito estranha. O olhar dela acompanhava as linhas, como se estivesse lendo, e ela falava. Quando o olhar dela terminava de percorrer a última linha de uma página, ela a virava muito devagar, aspirava profundamente, olhava para o céu, soltava o ar do pulmão, punha o dedo indicador em cima da primeira linha da próxima página, e continuava falando. Mas o que ela falava não era o que estava escrito.

A história era aquela, a estrutura da história era a do livro. Mas com outras palavras, outras imagens, outros diálogos. A explicação é que a empregada era analfabeta. De noite, depois do serviço, na casa dela, fazia alguém ler pra ela o que ela ia me ler no dia seguinte. E guardava na cabeça! O fantástico é que ela gostava das histórias, ela punha vida nas histórias. E que talento teatral! Nem sei mais o nome dela, uma artista popular, uma mulher esplêndida, que ficou anônima, mas leva o eterno carinho das minhas memórias infantis.

Como eu já podia ler por mim mesmo, ela foi dispensada da leitura e continuou arrumando a casa. Deve ter sofrido. A vocação dela não era arrumar casa, ela gostava mesmo é de ornamentar história para mim. Colocar a interpretação dela. Com ênfase.

Pacaembu

Quando eu fiz 13 anos o meu querido pai morreu, fiquei externo e passei a viver com os meus avós, o doutor João Marinho de Azevedo, médico e professor aposentado da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e a dona Cecília do Val Marinho. Eles moravam na rua Vitorino Carmilo, 620, que fica assim numa espécie de interseção de Barra Funda, Santa Cecília e Campos Elísios. Morando exclusivamente em São Paulo, o meu divertimento principal passou a ser assistir futebol no Pacaembu, que não ficava longe da casa de vovô.

Assistir futebol, ler a Gazeta Esportiva, o Esporte, o Mundo Esportivo, ouvir os comentários da rádio Tupi e da rádio Panamericana, eu virei uma enciclopédia de futebol. Duvido que tenha havido no mundo um estádio mais bonito e mais poético do que aquele Pacaembu antigo. E mais aconchegante. Fídias não teria feito melhor. Harmonioso do lado de fora e do lado de dentro. Cheio de vegetação, de chorões, de gramados em ladeira, num bairro do sobe e desce, bem coisa de São Paulo. Durante os jogos noturnos era uma festa para os olhos as dezenas de milhares de pontas acesas de cigarro, ainda não ofuscadas pela iluminação moderna. Nos lances agudos, no perigo de gol, a turma tragava com mais força, as luzinhas brilhavam mais. Outra marca registrada era o ritual do bêbado brigão que dois guardas traziam pelo colarinho e faziam desfilar na frente das arquibancadas. Ele sempre era preso lá no fim da ferradura, do lado da Concha Acústica. A perua Ford de presos, que chamava Pinguim, porque era branca e preta, ficava do lado oposto, no portão de entrada (Portões Monumentais). Então os guardas tinham que desfilar com o bêbado ao longo do alambrado. O bêbado vinha de lá do fundo, aos tropeções, trazido e levado, muito passivo, mas quando chegava na frente do grupo dois da numerada, o povo fazia um silêncio, era a hora que todos olhavam, então o bêbado (de paletó e gravata, puídos e velhos, mas sempre limpos) dava um tranco nos guardas, se soltava, fazia gestos desafiadores, aquilo era um gol de Baltazar, a gente levantava e aplaudia, assobiava, um guarda dava-lhe uma cacetada. Meu Deus! nem as massas desencadeadas que tomaram de assalto a Bastilha teriam mostrado tanto ódio contra o símbolo da opressão, todos os palavrões da língua caíam sobre os guardas, uma gritaria infernal, e o cortejo dos dois guardas e do bêbado ia caminhando, na direção do Pinguim, quando chegava no fim do grupo três, onde só tinha arquibancada de cima em baixo, o bêbado dava um bis, não havia muita variação, nem a gente pedia, a gente queria aquilo mesmo.

Constellation

Em janeiro de 1952, em companhia de minha tia Heloisa, voei para a Europa num Constellation da SAS. O meu avô havia determinado que eu cursasse o colegial na Suíça, não me acompanhou pessoalmente porque estava muito velho e as viagens naquele tempo não eram esta facilidade de hoje. Só o meu voo de avião desde o Galeão até Zurique, com escalas em Recife, Dakar e Madrid, demorou vinte e oito horas. Era um avião de hélice que voava baixo e a velocidade era muito inferior à de um jato atual. Voar baixo tinha uma vantagem inestimável: a gente via todos os detalhes da paisagem, nunca esquecerei aquele voo sobre os mares verdes-claros e tão brilhantes do Nordeste, mares de José de Alencar, totalmente transparentes, apareciam em baixo d’água as redes dos pescadores, muito nítidas, e depois, no dia seguinte, atravessando a França, uma colina atrás da outra, todas cultivadas, os rios e os riachos, os bosques, as cidades, as estradas, o trem andando.

Outra vantagem dos Constellations daquele tempo, comparados com os jatos de hoje, é que eram muito largos, espaçosos, a aeromoça puxava uma cama do teto, a gente pulava dentro, ela fechava a cortina e ia trazendo coisa para a gente comer, inclusive o café da manhã.

Largo também era o corredor do avião, lembro que havia um grupo de meninas adolescentes, muito alegre, sentamos no chão do corredor do avião e ficamos jogando baralho. E vinha de lá a mãe de uma delas, resolvia jogar também, sentava no chão, cabia todo mundo naquele corredor do Constellation, sobrava lugar para os comissários de bordo e para os outros passageiros irem passando, podia passar no meio da gente, se queria passava do lado, lugar é que não faltava.

Mundialização antes da palavra

Fui matriculado como aluno interno na École Nouvelle de la Suisse Romande, que ficava em Lausanne, no bairro de Chailly, e lá morei de janeiro de 1952 a abril de 1956, quando consegui o meu certificado de Maturité Fédérale Suisse. A Suíça fica bem no centro da Europa rica, apesar de muito pequena faz fronteira com Itália, Alemanha, Áustria e França. Em janeiro de 1952, seis anos apenas depois do fim da Segunda Grande Guerra, a Alemanha, a Itália e a França em processo de recuperação, a Suíça era de fato um paraíso de segurança e prosperidade. Então eu vi a mundialização muito antes de existir esta palavra. Dificilmente você sentava na mesa com duas pessoas da mesma nacionalidade.

Na minha escola o que tinha mais eram iranianos, siameses (os tailandeses eram chamados assim) e italianos, mas isoladamente (como eu, o único brasileiro) havia alunos de todos os lugares, como Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Islândia, Grécia, França, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Uruguai, Argentina, Colômbia, Turquia, Argélia, Madagascar, Congo Belga, Afeganistão, e mais os suíços. O Brasil, mesmo hoje, apresenta um número pequeno de estrangeiros. Nem nos cinco anos de escola primária, nem nos quatro anos de ginásio eu nunca tive um colega estrangeiro.

Agora eu estava dividindo o quarto com um grego (Salmonas), um italiano (Paolazzi) e um suíço (Hench). A Suíça era uma condensação daquilo, mas a Europa é uma família.

Quando, em 1955, o nosso professor de história Monsieur Yves Brassler, visivelmente emocionado, nos explicou o início da formação do Mercado Comum Europeu, eu, que já vivia há mais de três anos naquela Europa, indo para baixo e para cima nas férias, entendi que aquilo era uma coisa absolutamente lógica. São populações inter-relacionadas há muitos séculos, a Europa é um espaço geográfico e histórico comum para eles. Totalmente ao contrário de nós, na América do Sul.

Treino especial

O ambiente da escola era acolhedor, caloroso, impossível querer melhores amigos e melhores professores, e muito liberal em matéria de saídas e acima de tudo em matéria de não se meterem de modo nenhum com a vida particular da gente e o nosso modo de pensar. Ensino puxadíssimo, mas com muita aula particular eu resolvi aquilo. Morar num internato que tem instalações esportivas é igual morar em um clube, só quem não quer é que não vira atleta em pouco tempo. Eu virei. Até doze anos, em Santos e no Mackenzie eu havia jogado no gol, eu era um excelente goleiro. Eu fazia até um treino especial na grande varanda da minha casa na rua Galeão Carvalhal: amassava um pouco uma bola de pingue-pongue, jogava contra a parede e deixava ela bater no chão para depois eu defender.

Com o formato irregular do amassado a bola tomava direções imprevisíveis, aprimorando os meus reflexos. É claro que aquilo era irradiado e era comum que o locutor (que era eu) falasse com muita ênfase: João Carlos acaba de fazer uma defesa sensacional! Mirabolante!

Na pré-adolescência, quando comecei a jogar no campo grande do Mackenzie, enfrentando alunos maiores, verifiquei, à custa de muita bolada no peito e muito dedo torcido, que eu era excessivamente magro para aquela posição e passei a jogar na frente.

Ali na Suíça, no começo, estranhei o futebol deles, com muito uso do choque de corpo, mas fiquei forte, acostumei, acabei ficando capitão do time por três anos.

Cartas do avô

O meu querido avô era um grande missivista, escrevia cartas muito amorosas, muito bonitas, muito compridas, e muito numerosas, duas por mês. Quando chegava carta de vovô os meus colegas mais chegados se reuniam no meu quarto e pediam para eu traduzir. Vovô opinava sobre tudo, dava muitos conselhos. Ele escrevia: “namore as nativas, será útil para desenvolver o seu francês, melhor do que ficar ouvindo o francês maltratado destas italianas de pensionato”. Ou então: “não lhe esqueça de vigiar os dentes; que feio não apareceria no pretório um advogado com falha no frontispício da dentadura”.

No começo eu tive certo pudor, temia que os meus amigos achassem o meu avô ridículo.

Foi o contrário, eles adoravam, começaram a sentir um enorme carinho pelo meu avô. E o público foi aumentando, dali a pouco tinha gente sentada sobre a minha escrivaninha ou sentada no chão.

O outro deus do teatro

Só quem morou e estudou em país de língua francesa é que pode ter ideia da força e da influência que o teatro de Molière tem na vida desses povos. Está presente em tudo. Todas as escolas fazem representações teatrais, com as crianças, com adolescentes, e invariavelmente uma farsa ou peça curta de Molière é levada ao palco, dirigidas de maneira muito profissional.

E nas classes mais avançadas estuda-se e discute-se profundamente e com entusiasmo as comédias mais nobres, como o Misantropo, o Tartufo, a Escola de Mulheres, a Escola de Maridos, o Avaro, o Burguês Fidalgo etc. As tiradas a gente fica sabendo de cor e são usadas diariamente em situações da vida onde elas parecem ter cabimento, igual nos países de língua inglesa fazem com as citações de Shakespeare. Quando a gente sai de país francês tem-se a impressão de que o Shakespeare é o único deus mundial do teatro, mas lá dentro o deus do teatro é o Molière.

Onde você vai você não escapa de esbarrar numa coisa do Molière. Fui contagiado pela paixão do teatro, acabei escrevendo duas peças pequenas, só para serem representadas no Natal, na cerimônia de encerramento do ano, onde os parentes compareciam, e tiveram bastante sucesso. Qualquer pessoa que tenha familiaridade com os meus livros da turma do gordo percebe que eu faço avançar as minhas histórias através de diálogos: tenho certeza de que devo isso à intimidade que tive com as peças do Molière. Os diálogos dele “batem bola”, como a gente diz, a fala de um personagem traz uma resposta dinâmica e natural, que provoca outra resposta em cima, aquilo vive e avança: o diálogo vai dando o andamento da ação sem que o espectador se sinta guiado por um artifício do autor. Neste ponto Molière foi o meu mestre.

A namorada

Alguns dias antes do meu exame de Maturité recebi a triste notícia do falecimento de meu avô. Chorei vários dias sem parar e nunca esquecerei o amoroso e firmíssimo consolo que a minha namorada Françoise Dubuis me trouxe, não saindo do meu lado.

Este afeto que eu recebi da Françoise foi inesquecível. E também do meu querido amigo Alex Thalberg. Devo a eles ter chegado lúcido e combativo para passar aquele exame tão difícil,  considerado uma proeza até para os próprios suíços. E pronto, com o exame embaixo do braço, era voltar. Nada é para sempre é o título de um belo filme do Robert Redford. Ao entrar no Constellation da Air France, em 20 de abril de 1956, não adiantava eu me consolar me dizendo
que eu era moço, que a vida estava na minha frente, não adiantava, eu estava deixando para trás o sonho de fadas de uma adolescência muito feliz, outros sonhos eu viveria, mas aquele terminava ali, na porta do avião da Air France.

Nada é para sempre.

Política universitária

Cheguei no casarão da Vitorino Carmilo, 620, onde viviam a minha avó, a minha mãe e a minha irmã Dunia. Agora eu era o único homem daquela casa, e, com certa solenidade, penetrei no escritório do meu avô e sentei na escrivaninha dele. No ano seguinte prestei vestibular na São Francisco e passei a cursar a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Participei da política universitária, tendo sido redator-chefe do boletim do Centro Acadêmico XI de Agosto e também por um tempo redator do jornal da União dos Estudantes Universitários (UEE), sem esquecer que fui redator, ainda calouro de um jornal acadêmico de curtíssima duração (dois números) que tinha o nome de FAN – Frente Acadêmica Nacionalista. Comecei a dar assistência jurídica a sindicatos, o que me levou a aprofundar os meus estudos de Direito do Trabalho, matéria em que me especializei de maneira muito sólida. O treino que recebi no escritório trabalhista do doutor Altivo Ovando, quando estudante, teve influência muito importante no meu estilo de advogar.

Magnífico foi também o curso de Direito do Trabalho ministrado pelo professor Cesarino Junior, de longe o professor que eu mais admirei na Faculdade do Largo de São Francisco.

O gênio do crime

Em fins de 1961 passei a advogar em Guarulhos, primeiro para sindicatos e depois no meu próprio escritório. Eu estava muito bem preparado e o sucesso veio rapidamente.

Casei com a Marisa em outubro de 1962, em agosto de 1964 nasceu o nosso filho Roberto.

Em 1967 nasceu a minha filha Cecília e em 1969 nasceu o Alex. Eu e a Marisa fechamos a conta com três filhos. Em fins de 1965 eu já tinha condições de contratar um advogado assistente, o doutor Orlando Cruz Leite, que trabalhou dezesseis anos comigo e até hoje é um amigo do coração. A chegada do doutor Orlando tem um significado especial para a minha estreia na literatura. Enquanto eu advogava sozinho, com uma grande clientela, eu não tinha tempo para mais nada. É certo que antes eu havia contratado alguns advogados recém-formados mas eram instáveis e não me davam a confiança e a performance que eu precisava. Com o doutor Orlando eu pude dividir o trabalho e ficar em casa no período da manhã. Nestas manhãs livres foi-se formando na minha cabeça a ideia de O gênio do crime. Começaram a visitar a minha imaginação as cenas da minha infância e, entre elas, as dos concursos de figurinhas de futebol. As emoções destes concursos foram muitas, e, partindo delas, eu formei o enredo de O gênio do crime, que foi publicado algum tempo depois, em fevereiro de 1969.

Nessa ocasião, senti que havia alcançado a minha verdadeira vocação, aquela com que eu sonhava quando era criança.

 

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